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Quem Somos sombra

06.01.10  Sem Novidades no Front
por Sergio Pereira.

“O texto abaixo foi escrito em Maio de 2008.   Relendo-o percebo que é estranhamento atual.  No momento em que digito essa introdução a balança comercial de 2009 é anunciada e o resultado não é bom.  O governo já começa a se movimentar para tentar entender porque o saldo foi o menor em muitos anos.  E o que fazer para fazer essa conta ficar um pouco mais azul.  Tenho certeza que não tardará para vermos movimentos no sentido de estimular as exportações.  O texto abaixo tem quase dois anos.  Mas vale como se tivesse sido escrito hoje.”

Sem Novidades no Front
 

Há poucas semanas foi lançado um pacote de medidas para estimular as exportações.  Cômico se não fosse trágico.   Será que é possível que alguém com um mínimo de bom senso e discernimento chegue a acreditar que o que foi noticiado vai estimular nossas vendas externas?   Há quanto tempo cava-se o buraco onde o país se meteu?  O que foi feito de maneira a evitar essa situação esdrúxula?

Peço que você, leitor dessa coluna, desligue–se por um momento dos ufanistas anúncios de grau de investimento, aumento da oferta de empregos, recordes nas vendas de veículos.  Peço que olhe com atenção outra faceta da economia do país. 

As ditas medidas acima só viraram realidade no momento em que se percebeu que a balança comercial podia se tornar deficitária.  Não fosse essa preocupação real, iríamos empurrar a situação um pouco mais com a barriga fechando os olhos para as importações de ocasião e para a bolha das commodities que nos faz crer que somos bons de comércio.

Uma legião de empresas descobre o mundo e, agora sim, o verdadeiro supermercado que é a China (você certamente se lembra da frase presidencial de 2004 ao chegar ao país asiático).  Esse incrível movimento de ‘vamos às compras’ denota alguns pontos que merecem reflexão.     O que poderia ser mostra de inserção internacional via aquisição de bens, mais uma vez  configura um típico comportamento oportunista.  Ou alguém acha que os importadores pára-quedistas seguirão com o mesmo apetite se algo acontecer ao câmbio?    O número de empresas importadoras nunca foi tão alto.  Quase 27 mil.  E os exportadores poucas vezes foram tão minguados quanto agora.  Pouco mais de 17 mil.  Em tempo: não me refiro aos números absolutos, mas às bases importadora e exportadora, respectivamente.

A pressão das compras incessantes sobre os números da balança comercial vai jogar o país numa posição desconfortável.  Não dá para conviver com déficit na balança comercial.  Isso não é para o nosso fôlego.

Com uma taxa de R$ 1.65 (no momento em que escrevo esse texto), o que não falta é gente passando a considerar a palavra ‘exportação’ um xingamento daqueles.   Forçadas a deixar o mercado externo e – muitas vezes – desenvolvimentos de mercado trabalhados anos a fio, milhares de empresas cumprem o pior papel para a imagem do Brasil na cena internacional: do país que mais uma vez vira as costas ao mercado mundial, às ferozes negociações entre empresas altamente competitivas, à inserção global.

Mais uma vez o mundo vê os jogadores brasileiros voltarem para casa mais cedo, antes do jogo acabar. Cabisbaixos, voltam dando uma desculpa bastante plausível e aceitável e que equivale a uma mãe chamando seu filho para tomar banho e jantar.  O dano causado a esse tipo de postura não só é maior do que a inigualável capacidade que temos de esquecer os fatos do passado recente e insistir em recomeçar tudo  como se nada tivesse acontecido.

Erra feio quem acha que a situação cambial nacional será sempre essa.  Um dia isso muda e aí o que veremos já é bem conhecido.  Legiões de exportadores em direção ao exterior para colocar seus produtos lá fora.  Imagine como serão recebidos.  Enquanto isso, aqui dentro, a conhecida cena mostrando milhares de  containers de importação deixados nos portos brasileiros.  Tudo isso já aconteceu há pouco tempo e poderá voltar  a ocorrer.

A inserção internacional é um processo da qual certos países não podem abrir mão.  Para fazê-lo de forma condizente é preciso pensar em termos comerciais.  Hoje importa-se por conveniência e a exportação que sobreviveu está dividida entre dois grupos: O dos beneficiados pela bolha criada há alguns anos, que gera um consumo desenfreado por ítens básicos.  Esses não exportam.  São importados por compradores estrangeiros.  É a anti-exportação.  O outro grupo é formado por transnacionais com sotaque brasileiro.  Tendo o país como plataforma de exportação conseguem sobreviver ao câmbio do crioulo doido graças à suas imensas capacidades de escala, de captação de financiamentos e de se mover no mercado ocupando todos os espaços possíveis.  Que me desculpem os que vibram com esses dois grupos.   Não é isso que vai fazer desse país um ator relevante nas relações comerciais mundiais.  O eterno país do futuro se esmera em repetir o seu passado.
 

   
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