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Quem Somos sombra

06.01.10  Vinte Anos Agora
por Sergio Pereira.

Trabalho com exportação há vinte anos.    Lembro dos primeiros tempos quando procurava ler e entender o que acontecia no setor.   No final dos anos 80 – quando não havia internet – era bem mais complicado o armazenamento de informação.   Encontros, conferências, simpósios, debates, mesas redondas algumas vezes geravam versões impressas que permitiam que os menos experientes (como eu) lessem e relessem os tópicos abordados.  Também permitem que, após tanto tempo,  avaliemos o que foi feito e, principalmente, o que não mudou. 

Esse exercício é quase sempre curioso, quando não divertido.  Logicamente trata-se de coisa séria, mas o elemento gracioso vem do caráter atemporal das reclamações de quem vive do comércio exterior.  Estive vasculhando os anais de um determinado ‘encontro nacional’ ligado ao setor ocorrido nos primeiros anos dos anos 90.  Havia uma preocupação especial em relação à questão logística do país.   Portos caros, baixa produtividade, gargalos os mais diversos, problemas de escoamento, matriz logística distorcida, entre outros temas.  Quase duas décadas depois nada mudou.  Na verdade, piorou.

Há duas semanas recebi uma carta.  Chegou por e-mail e foi enviada por um grande armador a vários embarcadores (exportadores e importadores).  Creio que deva ter sido enviada também a outros players do mercado e até mesmo ao governo, uma vez que esse era parte mencionada.  No texto a empresa explica que não tem condições de atender seus clientes no Brasil dentro dos seus padrões de qualidade e se desculpa explicando que a razão é a situação dos portos nacionais.  Os mesmos problemas temas de debates há duas décadas acrescidos de um detalhe especial: muito mais carga para embarcar e desembarcar.  O país cresceu, o mercado mundial cresceu mais ainda e o país ficou exatamente onde estava.  O resultado é o caos.  Uma nação à beira do colapso numa área vital para sua saúde.

Confesso que a tal carta chamou a atenção.  Li e reli várias vezes. Não sabia muito bem o que fazer com ela.  Pensei em mostrá-la a meus clientes no exterior, mas não seria uma boa idéia.  Atestaria e confirmaria a incapacidade de um país orgulhoso e que se auto-proclama a potência do futuro, de gerir sua faceta comercial.  Por outro lado pensei se seria justo seguir tentando transmitir ao mercado explicações e escusas para cargas que não são embarcadas, que não chegam quando deveriam chegar, que custam mais do que deveriam custar.  Sim, até agora tenho absorvido o impacto e passo muitas vezes por um gestor de negócios que poderia melhorar bastante.  Dependendo da cultura com que estou lidando, minhas explicações soam como desculpas esfarrapadas que tentam esconder uma tremenda incompetência.  

Entre o recebimento da tal carta e a preparação desse pequeno texto eis que me chega outra semelhante. Dessa vez quem assina é o maior armador do mundo. Remete à primeira em conteúdo e forma.  Ambos ‘lavam as mãos’ e pedem que tenhamos compreensão uma vez que autoridades foram avisadas sobre a situação repetidas vezes.

Pensando friamente na complexidade do comércio internacional chego à conclusão que há um culpado nessa situação toda e que será severamente punido:  o exportador.  Explico minha constatação.  Armadores não sofrerão uma vez que seus pequenos navios sairão cheios pelos próximos vinte ou trinta anos. Ainda que dupliquem seus fretes, pagaremos. Importadores não têm compromissos a cumprir com clientes cada vez mais exigentes lá fora.  A lógica de seu negócio é inversa e seu papel não compromete a imagem do país.  Todos os provedores de serviços da arena do comércio exterior brasileiro seguirão cumprindo seus papéis de forma isolada. O que acontece depois da carga embarcada não afeta sua reputação. O governo está sujando as mãos no petróleo e se lambuzando de petulância ao passo que fecha os olhos para o drama logístico.  Tomara que não tente lavar as mãos depois.
 

   
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