Tenho observado com certa freqüência, alguns internacionalistas afirmarem com veemência : R.I. não é Comex. Não estão errados. Só não concordo com o sentido excludente de tal afirmação.
Por que tentar distanciar ainda mais duas áreas quando a convergência entre elas poderia trazer benefícios mútuos ?
Talvez a raiz do problema esteja na estrutura acadêmica brasileira que trata as carreiras de maneira isolada. No modelo atual as duas perdem.
A área de Comércio Exterior me parece a mais prejudicada. É impensável, que no Brasil não haja um curso de graduação exclusivo para a formação em Comércio Exterior.
Hoje as faculdades oferecem um curso de Administração com ênfase em Comércio Exterior. O que significa três anos de disciplinas ligadas à área de administração geral e no quarto e último ano do curso algumas poucas disciplinas que tratam de Comércio Exterior. Os problemas destes cursos são muitos. Primeiro, os alunos que conseguem um estágio na área de comércio exterior nos três primeiros anos da faculdade, vão para o mercado sem nenhuma visão teórica. O que é ruim para os dois lados.
Como em um ano não é possível fazer muita coisa as faculdades optam por incluir na grade curricular disciplinas elementares que tratam única e exclusivamente da parte operacional do comércio exterior. E o restante ? Será esse ínfimo conteúdo suficiente para preparar os futuros responsáveis pelas negociações internacionais brasileiras ? É possível que os profissionais brasileiros à frente de rodadas de negócios internacionais saiam da faculdade sem conhecer os principais aspectos culturais das diversas nações com as quais estarão em contato ? Ou que não saibam identificar os principais conflitos políticos, econômicos e religiosos ? Que não tenham estudado geopolítica, marketing e negociação internacional ? Ou será o objetivo destas instituições de ensino formarem apenas o staff operacional, encarregado de toda a rotina burocrática inerente as operações de importação / exportação ?
Isso explica outro problema : o sofrível desempenho dos negociadores brasileiros e consequentemente a imagem comprometida do Brasil no exterior.
De que adianta o governo destacar as benesses advindas do comércio internacional se as empresas não estão preparadas para atuarem no cenário global ? Uma das explicações é a falta de profissionais qualificados.
Além da falha na estrutura do curso também sabemos que muitos dos candidatos a profissionais da área não se preocupam com sua capacitação pessoal.
A maior parte deles nem sequer domina idiomas estrangeiros, o que é indispensável àqueles que pretendem ser profissionais sem fronteiras.
Voltando aos internacionalistas, o cenário descrito representa grandes oportunidades que são ignoradas pela maioria.
O problema neste caso é que há um excesso de profissionais melhor preparados, pois dedicam os quatro anos da faculdade às relações internacionais, normalmente são fluentes em dois ou mais idiomas, mas não admitem a possibilidade de trabalharem na área de Comércio Exterior. Aqui é importante destacar que a grande carência do setor não está na área operacional, mas na área comercial. O que o país e as empresas precisam são traders, negociadores que possam representá-los de maneira eficaz diante das demais nações.
E, todos sabemos que a oferta de vagas na diplomacia e no terceiro setor é muito menor que o número de graduados anualmente em Relações Internacionais.
Por que não atuar na área corporativa ? Idealismo, às vezes, representa frustrações e falta de dinheiro no bolso.
Por que não criar um curso que contemple uma convergência das áreas de Relações Internacionais e Comércio Exterior ?
Pode não ser a solução definitiva, mas certamente é mais sensato do que –ênfase em Comércio Exterior. Que ênfase ?